BOOK REVIEW #4 - Os meus problemas, Miguel Esteves Cardoso | Books
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O MEC é, para mim, um grande grande grande escritor, e como tal, é uma alegria ler o que quer que seja dele (visto que o devoro rapidamente e me consigo facilmente encontrar nas suas palavras!)
O livro "Os Meus Problemas", é um livro a atirar para o antigo (para ser simpática vá), mas que não deixa, de modo algum, de ser actual, e de se enquadrar nos dias de hoje com as suas crónicas satíricas em grande parte, mas sempre super engraçadas.
ISBN: 978-972-0-04602-4
Título Original: Os meus problemas
Autor: Miguel Esteves Cardoso
Editora: Porto Editora
Edição/ Reimpressão: 2016
Páginas: 224
Excerto:
«Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas.Os amigos, como acontece com os amantes, têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro.»
Passagens que me marcaram:
Para quem não gosta muito de ler, provavelmente pode achar enfadonho, mas eu adoro partilhar algumas partes dos livros que leio e que adoro, e por isso, aqui ficam os excertos que achei super interessantes e que não podiam deixar de faltar aqui:
"Na verdade, não há amor sem insegurança
(...)
Todo o amor é um engano. Trata-se é de nos enganarmos bem."
"Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém que se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. (...) A amizade só faz sentido quando traduz claramente uma escolha.
(...)
É pena não se poder ser amigo de toda a gente, mas um só amigo vale mais do que toda a gente. Porquê? Sei lá. Mas vale."
"A companhia que mais precisa de ser reabilitada, cuidada e finalmente desejada é a nossa. (...) Só as pessoas que têm o cuidado de estimar as suas próprias companhias passando tempo (férias, bons tempos, maus tempos, as passas do Algarve) com elas, são capazes de ser boa companhia dos outros. Não há criatura mais aterradora do que aquela que não é capaz de estar sozinha.Se nem ela se suporta a si mesma, como não há-de ser insuportável para os outros? (...) A pior raça que há é esta raça de gente que não suporta a solidão. São os penduras, os «deixa-me ir contigo», os «então-também-vou», os «sendo-assim-acompanho-te», os atrelados pesados e mal lubrificados que se seguram à nossa cintura e sonham passar a vida inteira arrastando-se assim. São os colas. (...) As mulheres sozinhas - e os homens sozinhos - são de longe melhores que os demais. (...) As pessoas sozinhas, que esperam, que sabem o que é a solidão, no que ela tem de bom e no que ela tem de mau, são muito mais desejáveis do que as pessoas super-aderentes que andam de amante em amante, de amigo em amigo, «só para não estarem sozinhas»
(...)
Nem mal acompanhado nem orgulhosamente só, mas, simplesmente, a sós, em paz.
(...)
É sempre de duas solidões boas que nasce a melhor das companhias."
"A saudade verdadeira não é a saudade espetacular dos fados nem a saudade misteriosa dos poetas. Verdade, por exemplo, é a saudade que se tem todas as manhãs, ao acordar, quando se bebe o café, das manhãs em que se bebia o mesmo café com alguém que se ama e já não se tem. Verdade é a saudade de verdade, de quem faz mais falta que os braços, de uma só casa, de um só amigo, de um só país. Ter saudades de tudo é não ter memória, nem vergonha, de nada."
"É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nos, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e que nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós...
(...)
Mas tanto desejar como querer são muito fáceis. Ter, isto é, conseguir mesmo o que se quer é mais difícil. E reter o que se tem, guardando-o e continuando a querê-lo, tanto como se quis antes de se ter, é quase impossível.
(...)
Como então resolver o problema? Em primeiro lugar, nunca se pode ter nada ou ninguém tão completamente quanto se quis.
(...)
É preciso haver bocados de nós que não se dão, que permaneçam por descobrir, que pareçam uma espécie de desafio, mesmo que apeteça dá-los totalmente.
(...)
Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas que não se pode querer senão uma pessoa. Ter todas as pessoas não chega para nos satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer. É por isso que se tem de dar valor à vontade. Poder-se-á querer ter alguém, sem querer também ser querido por essa pessoa? Eu não sei."
"É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem porque razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre de mais, sempre muito mais do que se aguenta e encaixa no peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
(...)
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro a esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.
(...)
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro."
E tu, já tinhas lido este livro? Se sim, conta-me o que achaste, nos comentários!








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